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A nova riqueza do Brasil

A última vez em que comemoramos o achado de uma grande riqueza natural, ela estava localizada a aproximadamente 7.000 m abaixo do nível do mar: foram os reservatórios de petróleo na camada do pré-sal. Agora, parece que uma nova riqueza foi descoberta e, o que é melhor, ela fica localizada bem próxima da superfície: a criatividade do povo brasileiro. Um tipo de recurso natural, com enorme potencial econômico, mas uma indústria pouco explorada por aqui.

Não é novidade para ninguém que, nas últimas décadas, praticamente todos os setores da economia passaram a ter que repensar seus próprios negócios. Como decorrência direta dessas transformações, as empresas não só passaram a reconhecer a importância do conhecimento como insumo de produção como também perceberam claramente o seu papel transformador no sistema produtivo. Além do capital, da matéria-prima e da mão de obra, as áreas estratégicas das empresas voltaram suas atenções para o uso das ideias como um recurso essencial para a geração de valor.

De fato, a criatividade, ou a capacidade de inovar de forma significativa, se consolidou como o fator determinante da vantagem competitiva das empresas. Em praticamente todos os segmentos da economia, aqueles que conseguem criar e continuar inovando são os que obtêm sucesso de longo prazo. Na verdade, desde a revolução agrícola é assim. A diferença é que só recentemente as empresas passaram a reconhecer, de fato, a importância da criatividade e da inovação em seu planejamento estratégico.

A primeira iniciativa para consolidar esse entendimento se deu na Europa, no final da década de 90. Em um movimento pioneiro, o DCMS (Departamento de Cultura, Mídia e Esportes) do Reino Unido concebeu e realizou o primeiro mapeamento das Indústrias Criativas. Seu objetivo era demonstrar que esse segmento da indústria possuía um vasto potencial de geração de empregos e riqueza.

Com uma visão bastante abrangente, essa iniciativa agrupou atividades econômicas cujo principal insumo produtivo era a criatividade. Sob essa perspectiva, o estudo mapeou não só as empresas essencialmente criativas, mas também aquelas que se relacionavam com elas, jogando luz sobre a importância das cadeias criativas.

A partir de 2001, mais dois estudos trouxeram novas perspectivas para esse tema. O pesquisador John Howkins agregou ao método britânico, uma visão empresarial baseada nos conceitos de propriedade intelectual no qual marcas, patentes e direitos autorais forneciam os princípios para a transformação da criatividade em produto. Em seguida, o professor Richard Florida aprofundou o entendimento a respeito dos profissionais que trabalhavam com processos criativos, a quem ele denominou de “classe criativa”. Além da representatividade numérica, seu estudo apontou as características sociais dessa nova classe de trabalhadores, assim como seu potencial de contribuição para o desenvolvimento.

Uma década depois do lançamento da primeira metodologia sobre as indústrias criativas, a UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento – publicou, em 2008, o primeiro estudo de abrangência internacional sobre o tema, e com foco direcionado a entender o potencial das trocas comerciais. O trabalho conseguiu demonstrar que as exportações das indústrias criativas no mundo já superavam a incrível barreira dos U$ 500 bilhões.

No Brasil, esse movimento também se iniciou em 2008 quando pela primeira vez a FIRJAN – Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro – lançou seu estudo “A Cadeia da Indústria Criativa no Brasil”.

O que mostra-se surpreendente, é que ainda que o Brasil mostre-se abaixo da média em uma série de índices internacionais importantes, como da educação, de distribuição da renda, etc., o PIB Criativo brasileiro já é o quinto maior do mundo, algo em torno de 110 bilhões de reais (segundo dados de 2012), ficando atrás apenas dos EUA, Reino Unido, França e Alemanha.

Para se ter uma ideia do potencial dessa indústria, somente o PIB criativo dos EUA, país que lidera o ranking, atingiu em 2012 um valor de 1 trilhão de reais, ou seja, algo em torno de 25% do PIB total brasileiro.

Estes dados nos mostram claramente que, dentre tantos setores da economia, a criatividade do povo brasileiro parece ser um de nossos recursos naturais mais valiosos, consolidando-se assim, cada vez mais, como uma excelente oportunidade de investimento para os próximos anos.

Entretanto, algumas perguntas ainda permanecem. O que faremos com essas reservas? Será que continuaremos com a mentalidade de um país de commodities? Não seria a hora de deixar de teorizar e começar a praticar a ideia de transformar o Brasil no Vale do Silício da criatividade? É esperar para ver.

(*) Gian Franco Rocchiccioli é Chief Strategy Officer da Pande e Diretor da ABEDESIGN (Associação Brasileira das Empresas de Design).